domingo, 27 de dezembro de 2015

Focus

Outro dia fui no Chuck-A-Rama. Somente os meninos e eu porque o Sam estava trabalhando e eu estava na rua com preguica de voltar pra casa cozinhar...

Enquanto estavamos comendo, eu olhei em volta e vi um monte de velhinhos em diferentes mesas. Uns somente com o conjuge e outros com outros casais ou filhos/netos. E dai a cabeca comecou a maquinar...

Quando eu estava no segundo grau aqui nos Estados Unidos (High School) eu tive que assistir para uma aula de historia um filme chamado "North & South" que se trata da epoca em que este pais estava dividido por causa da questao dos escravos. O Sul dependia dos escravos para a economia, mas o norte se opunha por causa da essencia moral da pratica.

Os dois papeis principais eram amigos. Eles lutaram varias guerras juntos. Um era do Norte e o outro era do Sul. Ambos lutaram na guerra civil e ambos tinham opinioes divergentes. No entanto, eles ainda eram amigos. Algo do filme que ficou comigo ate hoje eh qdo a pessoa do sul fala para seu amigo do norte que para continuarem amigos, eles nao podiam falar sobre o assunto dos escravos. E ele queria continuar amigos e, assim, continuaram.

Eu nao lembro direito o que acontece no final com a amizade dos dois, mas o que lembro eh que eles eram amigos mesmo com a guerra e tudo mais porque eles conheciam a essencia um do outro.

Entao ao olhar esses velhinhos eu me dei conta de que essa eh a geracao deles. A geracao de que se algo quebra, se conserta, se ha opinioes diferentes nao faz mal porque o que importa eh que cada um conhece a essencia do outro e isso basta. Ha respeito e admiracao.

Na epoca deles, nao havia informacoes tao facilmente disponiveis como temos hoje. Na igreja, uma das irmas bem velhinhas fez um comentario na sociedade de socorro sobre isso. Como temos tudo na palma da mao e na epoca dela nao era assim.

Antigamente, para obter conhecimento, alem de ir para a escola, se conversava com pessoas peritas no assunto, se lia livros de pessoas que entendiam de verdade do assunto e tinham umas letrinhas do lado do nome que lhe davam credito (MD, PHD, JD, etc), se falava com os mais experientes no assunto.

Quando amigos tinham opinioes diferentes, nao importava, porque todos se respeitam e sao seguros de si entao nao ha a necessidade de se sentir validado para se amar o amigo. As geracoes anteriores sabem o valor da essencia de uma pessoa. O valor de uma amizade. O valor de se respeitar.

Isso tudo me fez lembrar de uma colega de trabalho que eu tinha. Ele ja devia ter uns 70 anos. Ele era bispo. Eu adorava sentar no escritorio dele e conversar sobre coisas diversas. Um dia ele e eu estavamos conversando sobre cancer porque ele estava com cancer de pele. E eu falei o que o medico naturologista me falou no Brasil sobre cancer, protetor solar e proteina animal. Ele escutou calmamente e nao me interrompeu. Quando eu terminei ele falou "muito interessante o que voce acredita." Em uma simples frase ele mostrou respeito e me informou que nao acredita no que eu acredito. E ele nao tentou me provar errada nem nada. E logico, por respeito, mesmo se nos nao tinhamos a mesma opiniao, eu nao ia ficar bashing nele. Ainda mais porque eu gostava muito dele. Ele faleceu ha um ano atraz.

Ele vem dessa geracao que eu descrevi.

Como pode uma pessoa que nunca viveu nessa era, sentir saudades dela? Eu sinto. Eu sinto saudades do "focus"  dessa geracao que hoje tem cabelos brancos e maos enrugadas. Eu sinto o maior desejo, aquele que vem do amago, de ser como eles sao. De ser uma amiga como eles sao. Eu nao estou nem perto de ser, para ser sincera. Mas sou grata que eu tenho tantos bons exemplos para eu seguir e ser melhor.

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